O mundo corporativo: Um corpo ativo

Discussões sobre o corpo como meio de agir nas empresas e no mundo


Por Marisa Gimenes e João Luiz Carneiro





Aviso importante. Tempo de leitura: Modo reflexão



Escaneando Corpos


Vamos falar sobre o corpo? O convite parece estranho, mas ele é mais do que necessário. Ele é fundamental para questões que vão da saúde física, passando pelo equilíbrio mental e emocional, entrega de resultados, criação de expectativas de uma empresa ao atender os seus clientes.


Esse convite poderia ser imaginado como um pedido para dançar. Nós, Marisa e João, chamamos você para uma roda de dança. E nessa dança queremos passar por vários ritmos e jeitos de usar nosso corpo para se movimentar. Movimente-se conosco! Bora lá?


O corpo cria e marca a nossa identidade. O que faz um ser humano se relacionar com o outro em primeiro lugar é o corpo. Seja olhando, tocando, interagindo de várias formas, o corpo é o centro do relacionamento por excelência. Quando uma empresa busca Customer Experience, Employee Experience, o que está em comum a tudo isso é o Body Experience. Afinal, como pensar em experiência esquecendo o corpo? Isso é tão central para a Atma, que o corpo é um dos sets" (Bodyset) que julgamos de imensa importância.


Caminhando com o nosso corpo, nos deparamos com a doença e a saúde. Um dos grandes sinais que o corpo apresenta para o mundo é o seu estado de saúde. Nesse sentido, existem marcas que podem ser observadas por meio de um dos cinco sentidos. Somado a isso, existem questões mentais e emocionais que se expressam no corpo. O corpo recebe influências do meio e constrói o meio ao seu redor. Se isso ocorrer no ângulo individual, certamente serão possíveis outras aplicações, como grupos, comunidades e, porque não, empresas.


Aliás, o próprio conceito “corporativo” remete à ideia de um corpo coletivo. Corporativo é um corpo ativo, assim como organização é um organismo em ação. Você já pensou sobre isso? O quanto observamos o nosso corpo no cotidiano das empresas e, principalmente agora, onde muitos dos colaboradores estão em ambiente de home office. Ao pensar nesse corpo coletivo das empresas, muitas vezes parece que esquartejamos ele para valorizar o que é funcional e eliminar o que é disfuncional. Entretanto isso não é possível, somos o que somos e temos o corpo que temos. Podemos pensar até que ponto isso é uma ilusão, qual seja a de descartar uma parte do corpo ou hiper aproveitar outra. Essa verdadeira esquizofrenia do corpo pode gerar várias doenças no indivíduo e na empresa. Afinal, a empresa também pode ser reconhecida como um conjunto de corpos.


Quando falamos de um corpo saudável, ele precisa ser entendido de forma integral, levando em consideração questões mentais, físicas, afetivas, financeiras e até éticas. Como reconhecer a saúde em um corpo quando as questões relatadas acima são negligenciadas?


Ao pensarmos que cada indivíduo é um ser único e irrepetível (Victor Frankl), juntamos o conceito da clássica pirâmide de Maslow, na qual constatamos que cada indivíduo está em um estágio diferente, e com isso compreendemos que a saída está em perceber a si mesmo e perceber o sistema. Neste momento retomamos a metáfora da dança e te convidamos a perceber em qual hora você está na pista e em qual está na arquibancada. Em suma, apresenta-se o lugar de fala como o espaço para viver a experiência, lugar de autoridade como a oportunidade de aprofundar o conhecimento e a técnica e o lugar de sabedoria como a reunião de ambos gerando algo totalmente novo.

Olhar para a saúde de uma empresa equivale a observar 3 dimensões; Mindset, Heartset, Bodyset (abordagem desenvolvida pela Atma Genus e batizada de Atmaset, integrando uma 4 dimensão que é a consciência). Quando temos esse olhar sistêmico, o caminho para a saudabilidade se torna viável e responsivo. Algumas problematizações que envolvem o corpo estão no centro da discussão de D&I (diversidade e inclusão) e cada vez mais pedindo passagem nos temas de ESG (sigla inglesa que significa "environmental, social and governance", ou seja, ambiental, social e governança, em português).



Diversidade de Corpos


Precisamos respeitar a diversidade de corpos no mundo corporativo e incluirmos suas peculiaridades. A diferença pode causar estranheza, mas não exclusão, logo, aprendamos sobre ela.


"Não me venha com domínio/ Disfarçado de carinho/ Me deixa ser mulher"

Ser mulher, ter um corpo de mulher ou tornar seu corpo um corpo de mulher, no caso de mulheres trans, muda a sua forma de viver e conviver na empresa. Historicamente a mulher tem um lugar social que a afasta do meio corporativo. Quando presente nele, ainda impera a desigualdade salarial ou de oportunidade em cargos de liderança. Além disso, vale a pena ressaltar a tentativa de colocar o feminino como afetivo, passivo e irracional. Enquanto isso, o masculino representaria o lógico, ativo e racional. O lugar da modernidade ainda é um lugar de hierarquias onde o racional seria superior ao irracional e, portanto, o homem estaria acima da mulher. No que pese não ter nenhuma relação com a realidade, esse fato construído culturalmente ainda mantém hiatos de gênero nas corporações. Conhecer a história do patriarcado pode ajudar o sistema a encontrar caminhos para as mulheres em suas angústias e discriminações.


Corpos negros, corpos pretos "A carne mais barata no mercado é a carne negra". Essa música eternizada na voz marcante da imortal Elza Soares aponta para um fato histórico que é uma realidade social. O fato histórico está na imposição agressiva e desumana ao continente africano em um centro produtor de mão de obra escrava por muitos séculos para o mundo todo. A realidade social é que os recortes de pesquisas de remuneração das empresas ainda apresentam o maior gap salarial entre pessoas brancas e pretas. Assim, o corpo influencia até nisso. Como contribuir para que mais pessoas pretas possam mudar a realidade de suas famílias e do seu entorno? Quais programas podemos criar? Estamos atrasados na busca por solucionar esta questão.


Velhos corpos ou corpos joviais? "Eu sou um moço velho/ Que já viveu muito/ Que já sofreu tudo/ E já morreu cedo/ Eu sou um velho moço/ Que não viveu cedo/ Que não sofreu muito/ Mas não morreu tudo". Ainda perdura alguns preconceitos de que o jovem não pode ou não consegue assumir certos desafios por falta de experiência. Ocorre que nessa fase, existe uma potência de aprendizado e adaptação que pode entregar muito resultado para o negócio de uma organização. Na outra ponta encontram-se pessoas mais velhas e com mais experiência. Em uma sociedade de base oral são uma referência máxima, enquanto que para um mercado de trabalho focado na produção em escala, praticamente um peso morto em muitas situações. Alega-se de forma discriminatória o quanto os anciãos são lentos ou reativos, não acompanhando a tecnologia e as mudanças constantes do mercado. Qual seria o melhor lugar para eles? Como utilizar a sabedoria adquirida ao longo dos anos?



Beleza dos Corpos


Ainda são estabelecidos padrões corretos de corpo. O que foge disso é estranho, vulgar, inadequado… Como já escrevemos, corpos expressam almas, portanto o nosso melhor. É exatamente na diversidade de corpos que pode residir a força de uma empresa no seu processo contínuo de melhoria e aperfeiçoamento. Afinal de contas, sistemas complexos exigem leituras e processos de igual complexidade. Não existe melhor forma de reunir isso do que vivendo essa alteridade da diversidade. Dito de outra forma, precisamos de mais corpos diferentes que não sejam tratados como desiguais no mundo corporativo!


Belo corpo? Qual corpo é belo? "Não tem nada de errado em amar quem você é / Ela disse, pois Ele te fez perfeita, baby / Então erga a cabeça, menina, você ainda vai longe / Escute quando eu digo / Eu sou linda do meu jeito (...) Eu nasci assim / Não se esconda em arrependimento / Apenas ame-se e você estará feita / Eu estou no caminho certo, baby / Eu nasci assim"


Você gosta do seu corpo? Sim, não, mais ou menos ou depende do dia? Isso deveria ser uma questão pessoal, mas não é. No meio corporativo ainda existem lugares onde ter um peso maior ou menor pode gerar tratamento diferenciado. Se a pessoa, normalmente mulher, é julgada como "feia", perde oportunidades. Se é bonita e tem sucesso, vendeu o corpo… Se é "gorda", não "pega bem", mas também não pode ser tão magra… Essa forma desumana de lidar com o corpo por parte de muitos líderes ou políticas informais de algumas empresas mostram o quanto estamos atrasados enquanto sociedade.


Seja você mesmo ou você mesma, conectando-se com sua essência. Além disso, permite-se reconhecer as oposições externas e lidar na medida do seu tempo e força para isso.



As disposições corporais


Seguindo com nossa dança, agora o convite é pensarmos e distinguirmos quatro disposições corporais que estão presentes no nosso dia-a-dia, só nunca paramos para observá-las. Não basta ler, é preciso ouvir sobre o corpo. É preciso usar o corpo. Nesse sentido, a playlist ao final do texto é o nosso pedido para uma compreensão mais ampla e profunda do que estamos abordando neste artigo. Essa playlist quer te provocar nos ritmos, mais do que nas letras ou estilos. Deixe-se levar, mesmo que não sejam seus cantores prediletos.


O corpo age e interage no mundo, buscando abertura. A abertura é dar espaço para você se aproximar, é ouvir o que o outro tem a dizer, é me entregar para o outro e também escutar a mim mesm(x). A melodia que embala essa postura pode ser sentida por Flavia Wenceslau - Carona de Beija Flor.




Vamos observar a estabilidade, ela possibilita sustentar o espaço criado, se manter centrado apesar das adversidades, nos traz também consistência, disciplina e recorrência. Quem nos provoca a dançar nessa disposição é Willis Earl Beal- Too Dry to Cry. Essa música estimula movimentos igualmente harmoniosos.




Chegamos na resolução, ela traz movimentos para frente e está ligada a nossa tomada de decisão, assertividade, ação. A música despertadora dessa disposição é de Green Day - Holiday.




Nossa última disposição é a flexibilidade, ela nos ensina a experimentar, a viver o novo, permite que nos entreguemos à ousadia e ao inesperado. A música é de Natiruts - Quero Ser Feliz também.




São essas 4 disposições corporais que exercemos em nosso dia-a-dia dentro e fora do mundo corporativo: abertura, estabilidade, resolução e flexibilidade. Temos predominâncias fruto da nossa genética, cultura, sociedade e por fatores econômicos. Suspendam os julgamentos sobre ser bom ou mau, certo ou errado, apenas convidamos a observar com qual frequência estamos em cada uma delas.


O que é mais conhecido e me resulta fácil e o que é mais desconhecido e tenho dificuldades de experimentar? Nas reuniões em que tenho participado, como estou com relação a essas disposições? Como estão meus líderes? Como posso ajudar que meu entorno perceba o que nos é mais fácil como time e o que precisamos praticar? Quanto a falta ou excesso de uma delas me afasta ou me aproxima da execução da estratégia? Qual disposição meu time necessita para enfrentar os desafios?

Seguindo em nossos exemplos imaginem uma reunião em que a alta administração identifica a necessidade de encontrar novos caminhos para resolver um importante problema da empresa e as pessoas envolvidas expressam corpos com disposição para estabilidade. A mudança não vai acontecer. No exemplo dado, se faz necessária a disposição corporal de abertura para encontrar essa nova jornada. Só depois os corpos resolutivos entram para implementar. Na sequência, a disposição corporal de flexibilidade pede passagem para ajustar a rota e apenas quando se chega na velocidade de cruzeiro os corpos dispostos à energia da estabilidade são funcionais para manter o resultado desejado alcançado.


O que propomos aqui é uma verdadeira dança corporativa que se movimenta para o resultado tão propalado. Corporativo é corpo ativo em conexão profunda e real. Isso faz toda a diferença e é na diferença que encontramos os caminhos para o corpo se empoderar. O corpo ativo do mundo corporativo clama por se expressar nas 4 disposições corporais. Não é uniformizando pessoas e dados que vamos alcançar isso, mas sim incluindo, de fato, a diversidade dos corpos.




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Quer ouvir a playslist das músicas citadas em um só lugar?

Acesse: https://music.youtube.com/playlist?list=PL3t63M9X9AXRipcibxEC02-_R9DMRbixb



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