Sim. Queremos falar sobre a dor, sobre a dúvida, sobre a tristeza.

A ideia de ampliar a consciência sobre saúde mental parece mais atual e necessária que nunca. Ainda que oficialmente os dados de afastamento do trabalho apontem para um ranking liderado por doenças do sistema osteomuscular como dor nas costas, a partir de 2020 dispararam os casos de doenças do aparelho respiratório e outras correlatas à pandemia do COVID-19.


Mas o que mais queremos ressaltar é que os transtornos mentais e comportamentais assumiram rapidamente o segundo lugar na média geral. E nossa experiência junto aos clientes da Atma Genus mostra que estes números já não representam a realidade de 2021/2022, com doenças neurológicas (soma de síndrome de Burnout, depressão e outros transtornos) liderando os casos de afastamento, principalmente em empresas que abriram espaço para falar sobre estes temas.


Muitas pessoas, talvez ainda a maioria, não reconhecem em si mesmas os sintomas prévios de esgotamento que levam ao Burnout, seja por medo de perder emprego, por falta de informação ou simplesmente por vivermos numa sociedade que estimula, celebra e idolatra o desempenho a qualquer custo.


Não parece mais novidade e não repetirei aqui os importantes avisos sobre o agravamento destas situações pelo isolamento ou afastamento social que nos foi imposto pela pandemia.

Quero apresentar uma reflexão mais pessoal e também baseada na minha experiência como mentor ou coach de executivos neste período. Está florescendo uma nova consciência, uma nova necessidade, uma revisão de ritmos e velocidade, no trabalho e nas demais dimensões da vida cotidiana.


Movimentos iniciados na década de 90 como o Slow Food, idealizado pelo italiano Carlos Petrini, ganham novo impulso num mundo deparando-se com a impossibilidade de seguir acelerando, de seguir crescendo sem limites.


No livro intitulado Devagar, o escocês Carl Honoré coleta histórias reais e muitos dados estatísticos para apoiar a sua visão de como podemos todos nos beneficiar com um mundo mais contemplativo e eficaz, sem neurose por eficiência e produtividade a qualquer custo.

Uma análise mais criteriosa sobre a possibilidade de crescer sem parar, em velocidades cada dia mais altas, aponta para uma realidade conhecida por muitos, esgotamento por falta de propósito, lembrando o mito de Sísifo que foi condenado pelos deuses a eternamente empurrar uma pedra até o alto de uma montanha sem nunca conseguir finalizar a tarefa. Assim estamos, muitos de nós, vivendo sem sentido uma busca por progressão, sem espaço para desfrute, para descanso e para gerar um propósito evolutivo.


Cabe ao indivíduo a responsabilidade por suas escolhas? Sem dúvida! Podemos fazer algo como membros de comunidades de prática e como cidadãos para sair da inércia e apoiar a transformação cultural necessária? Sim, pois é um marco civilizatório que se aproxima como possibilidade. Seria uma pena não aproveitarmos uma oportunidade única de reflexão global, como esta, para darmos um passo na direção da sociedade que queremos para nós e nossos descendentes!


Byung Chul Han, filósofo e ensaísta sul coreano nos apresenta uma nova reflexão pós-pandemia, o risco da sociedade paliativa, na qual toda dor é escondida e substituída por uma positividade artificial, baseada em exposição extrema de “selfies” e “likes” irretocáveis.

Que tenhamos coragem de falar sobre a dor, sobre a dúvida, sobre a tristeza, para que a calma, alegria e a beleza genuína aconteçam fora do alcance expositivo do Instagram.


A verdadeira segurança psicológica começa na frente do espelho e na convivência possível que temos conosco nos momentos solitários!


Por Eduardo Afonso

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